sábado, 24 de julho de 2021

Library or gymnasium, that’s the question…

 




Este aqui da foto é o Asdrubal. O sonho dos seus pais sempre foi que tirasse um curso na melhor universidade do país – a UBI, claro – mas ele resolveu desenvolver os músculos. O pior é que enganou-se nos músculos, em vez de desenvolver os músculos do cérebro andou mas é a desenvolver tudo o que era músculo à volta da carcaça. Andou a bater ferro nos ginásios forte e feio, a meter para o bucho esteroides anabolizantes e outras merdas, e agora é muita parra e pouca uva no que respeita à inteligência. Aliás, de uva só vestígios, é burro que nem um carro de bois. 
O Asdrubal até já está arrependido de não se ter agarrado aos livros, apesar de não o admitir. O seu melhor amigo de infância, o Tílio, anda a estudar na UBI e de vez em quando manda-lhe umas fotografias da biblioteca só para o picar, “estás a ver, se te dedicasses mais aos livros em vez de só andares metido nos alteres, agora estavas aqui comigo na Covilhã e era uma curtição”. O Ardrubal no fundo até concorda com ele, mas para não dar parte de fraco manda-lhe de resposta umas fotos à Schwarzenegger, com a legenda, “mete aqui os olhos, ó lingrinhas”.
Se não fosse tão vaidoso e não fizesse sucesso com as pequenas desde tenra idade, provavelmente o Asdrúbal não se teria dedicado só ao corpo. Mas as miúdas eram como moscas de volta dele, e, não resistindo ao narcisismo, acabou viciado no espelho. Quando envelhecer, as peles flácidas que antes eram músculos vão-lhe andar a abanar no esqueleto, e não será nem bonito nem interessante. E aí é que vai lamentar a sério nunca ter posto os pés numa biblioteca, e ter passado a vida metido num ginásio… 

É o maior entre os demais
uáu, ninguém o segura…
um sonho de abdominais
e bíceps em curvatura

estiloso como os pavões
assim c’um ar de Las Vegas
desaperta no peito uns botões
e as miúdas ficam cegas!

é um verdadeiro machão
ginásio é que não dispensa
um corpinho à campeão
o pior é quando pensa…

quando pensa é só asneira
ideias de intestino grosso
ó que asno de primeira
tem burrice até ao osso…

sempre foi impressão minha
que o mal dos nossos dias
é estarem os ginásios à pinha
e as bibliotecas vazias...

Gondri

sábado, 10 de julho de 2021

Ai de nós se o cão – esse ser fofinho e amado - fica como nós…

 


O cão antes era um animal doméstico, agora faz parte da família. Mas nunca é pai, tio ou avô, é sempre filho, sobrinho, ou neto. O pai é o dono, o tio e o avô são respetivamente o irmão e o pai do dono. O cão nunca é pai, não consegue ter essa responsabilidade. Tem descendência, cachorrinhos, mas não lhes dá banho, não os leva a passear nem ao veterinário, não lhes compra um bolo de anos no dia do aniversário, não lhes dá comida nem roupa lavada, nada. O cão se não tem carraças é porque o pai previne o aparecimento delas, se não está doente é porque o pai o levou à vacina, o cão é mais sortudo do que o frango, o porco, ou o coelho. E não precisa de ter vergôntea na árvore genealógica para ser parente, está isento. Os testes de DNA também não dão para ver se o atual dono é que é de facto o pai, há uma série de coisas que não funcionam com o cão. Também não consegue tirar a primeira classe, quanto mais a quarta, o liceu népias, e a faculdade nem se fala. O cão no fundo é como seja um homem a quem tiraram a inteligência. E se lhe tiraram a inteligência também lhe tiraram a maldade. As pessoas burrinhas são as mais puras e as que não têm instintos malévolos. Deixem o cão continuar a ser assim, a não aprender a ler nem a escrever, como as pessoas acéfalas. Se o cão evoluísse para outro patamar deixava automaticamente de ser amoroso e de devotar aos donos um amor incondicional. Deixem-no ser dependente: se deixar de o ser fará frente aos donos e desejará o poder deles. O cão é o que é, esse ser fofinho e amado, porque tem um cérebro limitado, porque, coitadinho, não dá mais do que aquilo. Por isso não desejem que lhe cresça o cérebro, deixem que a sua natureza o mantenha como está. Ai de nós se o cão fica como nós… 
Aliás, assim como há quem diga que o homem nunca pôs os pés na lua, ou, pior ainda, que a terra é plana, também há quem pense que o cão tende a ficar como nós. Dizem os seguidores dessa corrente de pensamento que a gradual humanização e partilha de espaços e momentos, o contacto com a inteligência e com o esplendor linguístico que carateriza a comunicação entre humanos, está a produzir uma expansão fisiológica do cérebro dos caninos de tal forma explosiva que, mais cedo do que se imagina, as aptidões do cão equiparar-se-ão às dos humanos. Com o passar do tempo o desnível abissal entre as faculdades mentais dos dois ir-se-á encurtando, os QI ir-se-ão igualando, e aquilo que hoje não passaria de um milagre há de ser um dia algo tão normal e previsível como ir à janela de manhã para ver o sol que desponta no horizonte. E quando isso acontecer o cão deixará de ser aquela doçura mimosa que todos adoram e passará a ser uma ameaça de quatro patas. Queira por isso Deus que os que acreditam que o cão atual evoluirá para o “canis sapiens sapiens” estejam errados. Os homens só protegerão e amarão os cães enquanto eles continuarem a ser criaturas básicas e previsíveis. Ai de nós se o cão fica como nós…

Gondri