sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

A rir desde mil novecentos e trocópasso…

 

Quando eu era puto tinha um jardim perto de casa onde se juntava a miudagem toda da minha rua e das ruas vizinhas. Era uma farra pegada, naquele tempo a única coisa que nos prendia a casa era a voz de comando dos nossos pais, se dependesse de nós andávamos sempre no laréu. Agora os putos ficam grudados nos jogos de computador, na net, no telemóvel, se for preciso ficam o dia todo entrincheirados em casa como se estivessem presos. Naquela altura não, enchíamos o jardim e nunca faltavam coisas com que nos entretecemos. Uma das brincadeiras favoritas era o fazer rir. Ficava um a fazer rir os outros e o primeiro que se deixasse rir era o próximo a ir fazer rir. Eu tanto era forte a fazer rir como era fraco a deixar-me rir, e isso permitia-me brilhar porque estava permanentemente na posição de fazer rir, e com grande sucesso.
Sei que me saía bem no jogo mas já não me lembro que tipo de palhaçadas fazia. Naturalmente contava piadas, fazia caretas, coisas do género. Um dos putos, disso lembro-me bem, usava sempre a mesma estratégia: tirava a pila de fora e era risada certa. Estranhamente conseguia ser sempre bem sucedido apesar de ser tão previsível e repetitivo. E demorou tempo até que a tática da pila de fora deixasse de fazer efeito e ele tivesse que diversificar os seus métodos. À parte esse puto que atiçava o riso com a genitália, se bem me lembro a maior parte da malta recorria, tal como eu, aos métodos tradicionais, e sem bolinha vermelha. 
As minhas recordações são vagas e distantes, mas há uma que ainda está muito fresca. Um dos putos, não me perguntem o nome, ficava furioso consigo próprio por não resistir às minhas performances e andava sempre à minha procura para me convencer, e se convencer a ele próprio, de que eu não era capaz de o fazer rir. Nas sessões do jardim era sempre dos primeiros a desmanchar-se, mas não se conformava. Quando não estávamos em grupo e me apanhava a jeito lá vinha ele com o desafio: “faz-me lá rir!”. Virava-me as costas, afastava-se um bocado, e ficava a concentrar-se algum tempo. Depois regressava, muito sério, como se já tivesse tomado a pílula anti-riso, olhava-me tenso e firme, com cara de pedra, “faz-me lá rir agora”. Eu sabia que com aquela pressão toda em cima dele bastava-me um piscar de olho e a muralha dele desabava. “Faz-me lá rir agora”. Eu batia uma palma, uma simples palma que em condições normais não fazia rir ninguém, e ele esbardalhava-se todo a rir. Cerrava os punhos, voltava a virar-me as costas e a concentrar-se, e lá vinha ele para a segunda demão, com todos os músculos da cara tesos que nem barras de ferro, “agora é que não me fazes rir”. Eu olhava para ele, olhos nos olhos, ele naquela camisa de forças quase a rebentar, e eu outra vez uma palma, e ele outra vez a deixar-se rir que nem um perdido. Eu nem precisava de bater a palma, bastava esperar que ele desabasse por geração espontânea. No fundo era ele que se fazia rir a ele próprio, quando me enfrentava já vinha derrotado. Andava sempre naquilo, sempre que me apanhava na rua, só eu e ele, era a receita de sempre “faz-me lá rir agora!”. Um dia e outro, e outro e outro. A insistência foi tanta, e tanta a paranóia e o insólito da situação, que nunca mais me esqueci. É das poucas memórias que tenho dos meus, sei lá, treze ou catorze anos, ou até menos.
Naqueles tempos a internet não nos fazia falta nenhuma, éramos alegres e passávamos o tempo a rir. Costumo dizer que o que levamos desta vida são as gargalhadas que damos, e se no fim se concluir que demos mais do que aquelas a que tínhamos direito não creio que Deus nos cobre o excesso. Os tempos eram outros, a alegria era espontânea e natural, sem máquinas e sem eletrónica. Estávamos irmanados com o universo, ao sol ou à lua, éramos rebeldes e malucos, batíamos às portas e fugíamos, no verão enchíamos sacos de besouros e atirávamo-los pelas janelas que estavam abertas para entrar o fresco da noite, fazíamos guerras contra outros bairros, com espadas de pau e muita coragem, íamos aos pássaros, e ás vezes até íamos aos gambuzinos sem nunca sabermos o que isso era. E ríamos, riamos muito, não só no jogo do fazer rir mas em tudo o que fazíamos.
Talvez por ter conseguido sobressair nessas sessões de riso dos meus tenros anos, nunca mais larguei esta minha vontade de fazer rir os outros. Passar uma vida a tirar piadas da cartola, a fazer pequenas sessões de stand up aqui e ali, agora e depois, e ter de retorno o riso dos outros, nunca me deu dinheiro nem poder, mas sempre me deu muito prazer. Agora que estou velho já não sou o mesmo, as ideias já não chegam em catadupa, o improviso já anda ao pé-coxinho, são as agruras do tempo. Era bom que esse tão impensável chá de hiena não fosse apenas um puro exercício de ficção, que eu o pudesse tomar e regressar aos verdes anos do riso convulsivo. Que o pudesse tomar, sim, mas na condição de que se limitasse a fazer-me rir, que não me transformasse num necrófago comedor de carne morta e putrefacta. P’ra ter que comer a carne dos defuntos mais valera tomar um chá de abutre, que esse ao menos dava-me asas. Arriscava-me era a ter os gajos da Red Bull à perna a dizer que isso de o chá de abutre dar asas era uma apropriação indevida de slogan alheio. É claro que o ruído dos gajos da Red Bull chateia, mas, valha a verdade, pior são os animalistas para os quais todo o chá é uma infâmia se não for de origem vegetal. Se algum dia alguém descobre que as plantas também têm sentimentos estou p’ra ver como é que resolvem o imbróglio. Se calhar vamos ter todos que tomar chá de pedra, quem sabe. Nem que seja para fazer companhia à sopa de pedra nos cardápios da alimentação mineral…

Gondri


segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Dietas Ubianas e seus Quid pro Quos

 

Longe vão os tempos em que as refeições na cantina de Sto. António não ofereciam grande margem de escolha nas refeições diárias. Ou era carne ou era peixe. Mais a sopa, a sobremesa, o sumo e o papo seco. Se quiséssemos refinar o palato, tínhamos que desembolsar mais uns cobres e ir para outras paragens que isto de comer sempre a mesma coisa, acabava por habituar a boca a ponto de se chegar àquela situação em que um Bacalhau à Brás sabia ao mesmo que uma Feijoada à Transmontana, mudando apenas a consistência e aspecto das mesmas. In ilo tempore, não havia cá mariquices millenials de vegetarianismos, veganismos e outras deficiências e modas que pululam na sociedade actual. 

Se era para apanharmos uma ténia, era para apanharmos a ténia e ponto final. Cagássemo-la depois! Há malta que ainda é do tempo em que se desconfiava quando víamos cogumelos no prato. A menos que fossem míscaros e aí ninguém se atrevia a olhar de soslaio para aquilo. Tudo marchava. Também havia outras iguarias que nos faziam pensar duas vezes antes de as levar à boca, mas tudo era deglutido com a mesma voracidade e apetites, que isto de se subir a Santo António, fizesse chuva ou fizesse sol, não dava espaço a esquisitices. 

Ora, sendo um menu diário parco em opções, seria natural que fossem igualmente parcos em variedade semanal. Menus havia em que diziam que em tal dia "era Bacalhau com batatas" e apenas víamos batatas a cheirar a bacalhau; noutros, a famosa "carne de porco à alentejana" em que - novamente - a batata fazia missa de corpo presente - bem como as omnipresentes conchas vazias das ameijoas - e a carne tinha um aspecto dúbio, polissaturada de lípidos, nervuras e rija como solas. Uma vez trouxe um desses nacos de "carne" lá para casa para dar ao cão e este olhou para mim de lado, com ar de quem estava a pôr em causa o meu bom nome e a mostrar-me os caninos.

Mas coisa que não escasseava naquelas cantinas (desconfio que havia viveiros algures no Jardim de Nª Sra da Conceição) era a Maruca. A Maruca estava para a UBI como o queijo está para a Serra. O que sempre me meteu muita confusão, pois ficávamos com a sensação que aquela coisa dos "gostos e pratos regionais" era apenas "areia para os olhos" da ingenuidade académica. Que sentido fazia, estarmos a estudar numa localidade onde havia queijo, ovelhas, carqueija, míscaros, trutas, tudo ao pontapé, e darem-nos maruca e outras coisas não autóctones para comermos? Era só para nos chatear! Sei que na UA, por exemplo, havia sempre um ovinho mole à sobremesa ou Enguias de escabeche como "amuse bouche". No Porto, a cantina abria ao lanche para servir uns mini pratos de tripas à moda local. Em Lisboa não te serviam nada. Eram uns agarrados e uns sem ideias porque não é região que se preze para definir um prato típico pois tudo o que comem é proveniente do resto do país. Nas primeiras aqui citadas, posteriormente, despejavam-te a lavagem que entendessem no prato e tu nem davas conta nem te queixavas! Mas nunca termos tido direito a um queijinho da serra às refeições ubianas, é coisa que não lembrava ao diabo. Ou uma chanfaninha. Ou trutas do Paúl, sequer!

Tínhamos uma dieta constantemente bombardeada com maruca e nem mais um pio! Era "maruca recheada com maruca", "maruca salteada com maruca", "filetes de maruca com batatas confitadas em óleo de maruca" e sabe-se lá mais o quê. "Estrogonoff de maruca", "Mousse de maruca" ou "baba de maruca" eram pratos mais raros e sinal que o cozinheiro tinha mudado e serviam apenas para desenjoar.

É sobejamente sabido que o peixe estimula a inteligência e que a carne embrutece o indivíduo. Mas tinha de ser mesmo carne e não os sucedâneos que nos davam, que com aquilo que tínhamos na frente não havia efeito placebo que resultasse. Certo dia houve um engano na redacção do menu do dia e em vez de "maruca" alguém escreveu "peixe espada" e quase provocou um motim.

Portanto, seria natural pensar que o mar estava sobrelotado de maruca, mas não. Quando vinha a casa, perguntava à minha mãe - meio a medo não estivesse a dar-lhe ideias tristes - se não havia maruca nas peixarias, ao que esta me dizia que era raro encontrar e quando aparecia era um peixe assim a modos que para o "carote". Isto deixava-me a pensar ainda um pouco mais. "Ora... um peixe assim a "modos que para o carote" não é peixe para dar-se aos índios que estudam na UBI! A menos que haja um mercado negro da maruca que eu desconheça.". E, a menos que alguém nos serviços adjudicadores da paparoca ubiana estivesse a ser enganado à força toda, julgando que estava a comprar maruca e afinal recebia toneladas de peixe-porco disfarçado, havia qualquer coisa que não batia certo.

Devo dizer que por manifesta falta de tempo, nunca me dei ao trabalho de aprofundar a questão como seria - quiçá - merecedora. Sei que ainda é cedo aferir se a quantidade de maruca ingerida provocou efeitos a longo prazo ou não. Sei é que o prazo já vai adiantado e tirando as maleitas próprias da idade, nada aponta para que a culpa seja imputada directamente ao consumo de tal bicheza nadadora. E igualmente o que sei é que, ainda hoje, quando me cruzo com maruca nos hipermercados, vêm-me à ideia aqueles pratos gourmet que nos eram dados na cantina de Sto. António. E como sou daqueles que acha que "Em Roma, sê romano", acho que a voltar a comer maruca na vida, será apenas na cantina da UBI. É como ir a Trás-os-Montes comer uma caldeirada de enguias: é estúpido porque lá não há enguias, quanto mais caldeiradas em condições...!

sábado, 23 de janeiro de 2021

Covilhã, the city of hyena tea.

 


Tal como noticiei na minha última crónica, uma equipa de investigadores ubianos descobriu a cura para a covid 19: o chá de hiena. Como não podia deixar de ser, foi a melhor notícia que o mundo podia ter em tempo de pandemia. A fama do chá de hiena já extravasou fronteiras e todos os países o solicitaram às autoridades portuguesas, que, em colaboração com a UBI, estão a tratar de o produzir em grande escala e de proceder à sua distribuição, não só no espaço nacional mas também no âmbito planetário. As notícias sobre a extraordinária descoberta da equipa de cientistas da UBI correm céleres por todo o mundo, na internet, nas redes sociais, nos meios de comunicação social, em todo o lado onde a informação flui. O mundo está doido por conhecer a UBI. A Covilhã tornou-se um local de peregrinação, é só jornalistas por todo o lado, dos quatro cantos do mundo, um movimento desusado de gente a andar p’ra cima e p’ra baixo nos declives da cidade. As reportagens de exteriores sucedem-se, equipas de filmagem filmam as encostas graníticas da serra e a longa planície que lhe nasce no sopé, dissecam-se os usos e costumes da terra, momentos históricos, a virtuosa industria de lanifícios, a neve que pinta de branco as vertentes e os planaltos, tudo o que é suscetível de fazer notícia.
A Universidade da Beira Interior foi forçada a limitar o acesso à comunicação social, senão ficava tudo tão empanturrado de gente que não se podia dar passo sem andar aos encontrões. Mesmo assim é uma enchente, o que vale é que com a vacina e o chá de hiena a pandemia ficou sob controlo e o distanciamento social passou a ser uma medida do passado. Ainda bem que assim é, senão era o fim da macacada…
A Covilhã está a abrir os noticiários das televisões de todo o mundo, a começar pela CNN e a acabar nas televisões mais modestas dos países do terceiro mundo, não se fala noutra coisa, o mundo está parado a admirar a Covilhã e a sua UBI. Ninguém diria que, à semelhança dos tempos épicos do Infante Dom Henrique, Portugal voltaria a ter o mundo a seus pés…
Mas há sempre vozes críticas, é fatal como o destino. Esperava-se que a censura viesse de outras universidades, por inveja. Que viesse dos ambientalistas que sempre combateram o turismo de massas e os seus efeitos perversos. Que viesse das farmacêuticas que perdem de vender uma série de fármacos tidos como bons para o covid. Que viesse dos curandeiros charlatães que deixam de ter incautos para enganar. Enfim, que viesse de todos os lados menos do lado de que de facto veio: do lado vegan. O problema está obviamente na hiena, porque, segundo o evangelho vegan, não se pode consumir nada que tenha origem animal.
Há coisas de origem animal que eu também não consumo, como por exemplo o cheiro pestilento de um porco acabado de sair de um banho de esterco. Ou o palrar de um papagaio malcriado que me manda à merda quando passo. Ou mesmo o encosto da enguia elétrica que me deixa em estado de choque. Mas não dispenso o canto do rouxinol ou o leque do pavão, o amor incondicional do cão, a elegância do cavalo, não dispenso nenhuma das coisas belas e inacreditáveis do reino animal, nem dispenso, e aqui é que está o meu crime, um bom bife. Ou seja, na ótica vegan sou um criminoso, assim como o são também os investigadores ubianos que, com a descoberta dos poderes curativos do chá de hiena, livraram a humanidade do coronavírus.
O mundo vegan levanta-se em protesto contra o chá de hiena. Se fosse de tília ou de limão nada disto acontecia, eram tudo rosas. Mas a hiena é um animal e os animais não se usam em benefício dos homens. Um vegan quando vê um filme de cowboys passa bem com a matança dos índios, o que não suporta é que andem todos em cima dos cavalos, tanto os índios como os cowboys. Se andassem em cima de abóboras era ótimo, o pior é que as abóboras não têm pernas e não saem do mesmo sítio. Não se pode ter tudo…
A hiena é colocada num caldeirão com água a ferver, chá é chá. De facto é horroroso, mas é o crime que a humanidade tem que cometer para se salvar. O vegan fanático, no entanto, não comete esse crime, dá a vida pela causa, prefere morrer aos pés do covid do que desgraçar a hiena. Se for vegan e testemunha de Geová, então deixa-se morrer tanto pelo sangue como pelo chá, rejeita a transfusão e a infusão.
Os ativistas vegan unem-se empenhadamente contra mais este atentado à felicidade animal. Considerando que o exemplo vem de cima já têm preparada uma avioneta que sobrevoará a cidade da Covilhã lançando folhetos como fotos de hienas em sofrimento e frases como “os animais também sentem, tenham compaixão”. O movimento vegan não se fica por este rectangulozinho da península ibérica, alastra a todo o mundo e toma cada vez mais visibilidade. Nas cidades mais importantes e mediáticas do planeta sucedem-se as manifestações de rua, com os cartazes e os gritos de ordem do costume.
Nova York prepara-se para receber a marcha do Orgulho GAY e a marcha vegan do Orgulho CA (Couves&Alfaces). No entanto, para aumentar significativamente o número de participantes e dar dessa forma maior destaque ao protesto, em vez da marcha do Orgulho CA e da marcha do Orgulho GAY, os movimento LGBT e vegan resolveram juntar-se na marcha do Orgulho CAGAY (o que, convenhamos, não soa lá muito bem…). Será certamente a maior marcha de que há memória na cidade, com um impacto incomparavelmente maior do que seria se gays e animalistas desfilassem em eventos separados. 
Ou seja, agora que a Covilhã se tornou o centro do mundo podia esperar-se um ataque à bomba dos terroristas do Islão, uma invasão de infetados desesperados pela cura, uma onda de fake news com base em teorias da conspiração, uma investida de negacionistas a negar tudo…, enfim, tudo menos uma insurreição vegan. Mas, surpreendentemente, é isso mesmo que está a acontecer. Assim vai o mundo…

Gondri

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Chá de quê?...


Um grupo de investigadores da faculdade de medicina da Universidade da Beira Interior acaba de confirmar, após um longo trabalho de investigação, que, tal como diz a sabedoria popular, rir é o melhor remédio. Apesar de amplamente difundida e passada de boca em boca, a tese de que rir é o melhor remédio nunca passou de uma convicção empírica sem qualquer sustentação científica. É por isso que a UBI acaba de fazer história ao confirmar, cientificamente, após teste contra o placebo, que assim é. Numa amostra de mil voluntários infetados com o novo coronavírus, a quinhentos foi contada uma anedota de alentejanos com piada e aos outros quinhentos uma sem piada, sendo que, no grupo da anedota com piada 96% dos indivíduos ficaram curados contra 5% do grupo da anedota sem piada. Uma tão gigantesca diferença no número de curas não deixou qualquer margem para especulações ou exercício do contraditório, foi imediatamente reconhecida por unanimidade pela comunidade científica, e até os indefetíveis negacionistas se reduziram a zero perante a evidência dos números. 
Passada a fase inicial e bombástica da descoberta, era agora necessário aferir as condições da aplicação da terapêutica à população. E foi aí que começaram a surgir as dificuldades. Em pessoas cultas e relativamente inteligentes o riso provocado pelas anedotas curava com abundância, mas, quando o nível cognitivo baixava, o remédio deixava de fazer efeito porque as pessoas não percebiam as anedotas e por isso não se riam. Pior se passava com os imigrantes estrangeiros que, face às dificuldades da língua, menos aptos estavam para compreender as piadas. Ou com a minoria surda que, sem a faculdade de ouvir, ficava inconstitucional e imoralmente excluída. 
Perante as dificuldades da comunicação oral, tentou-se a mímica que era universal e ultrapassava as barreiras da língua. Mas não contemplava os invisuais, o que, só por si, abolia logo a priori qualquer possibilidade de ser implementada. Além disso, tirando os surdos que se entendiam perfeitamente na linguagem gestual, constatou-se que a comunicação por mímica era um autêntico bicho de sete cabeças, que na maior parte das vezes ninguém se entendia. E a hipótese da mímica também não vingou.
Face ao falhanço das hipóteses anteriormente descritas, tentou-se a técnica das cócegas. Quem é que nunca se desmanchou a rir com cócegas, especialmente na sola dos pés?! Em criança eu fugia delas a sete pés, mas, quando me apanhavam, destrambelhava-me todo à gargalhada e havia poucas coisas que me provocassem um riso tão convulsivo. Mas não demorou muito até que se percebesse que o método das cócegas também não era solução. Primeiro porque havia pessoas que pura e simplesmente não tinham cócegas, depois porque para alguns a fuga às cócegas era mais mobilizadora do que a própria fuga aos impostos, e ainda, entre outras razões, porque havia pessoas de temperamento sério e circunspecto para quem as cócegas eram coisa de criança. Nada feito, portanto.
O passo seguinte foi um completo disparate. Um dos investigadores ubianos lembrou-se de propor o uso de gás hilariante para despoletar o riso sem ter em conta que se trata de uma droga psicoativa. Inconsciente do perigo decidiu experimentar em si próprio o óxido nitroso, a chamada droga do riso, e, depois de muito gargalhar, sentiu-se mal e teve que ser assistido no hospital. De facto o óxido nitroso não é inofensivo, como muitos pensam. Quando é inalado em grandes quantidades pode levar à anoxia cerebral (falta de oxigénio no cérebro), e, nos casos mais críticos, pode provocar a morte. Uma morte falsamente divertida, diga-se, as vítimas morrem literalmente a rir. E eis que ainda não era desta que se descobria a melhor forma de administrar o riso, que era, já se sabia, o melhor remédio. 
Como se sabe a palavra “desistir” não consta do vocabulário da UBI. As experiências continuaram, as tentativas sucederam-se, e a cada tropeção seguia-se sempre uma nova vaga de entusiasmo. Tentaram-se outras substâncias que induzissem o riso e fossem facilmente aplicáveis. De preferência naturais. Experimentaram-se plantas exóticas, muitas da Amazónia, muitas das florestas húmidas do Congo, muitas de todo o lado, mas nenhuma fazia rir. Chás e mais chás, e nada. Ainda se falou em cannabis que, como se sabe, faz rir bué. Mas era hipótese abortada à partida porque a cannabis não é permitida por lei. Aliás, mesmo que o fosse, ninguém estava a ver o país inteiro a fumar a dita cuja. Não estava fácil. Não se mediam esforços para encontrar uma solução, mas não estava fácil.
Até que, num dia épico, a solução chegou, pode dizer-se, pela televisão. O Dr. Norberto, um dos investigadores ubianos, teve um assomo de génio quando estava refastelado em casa a ver um documentário da National Geografic, sobre hienas. Claro que ele sabia que as hienas riem, toda a gente sabe, mas nem sempre lembra. E a partir daí iniciou mais uma levada de experiências até que chegou ao medicamento prometido, ao melhor remédio, à sentença de morte do coronavírus. Levanto só uma pontinha do véu: é uma bebida. Podia manter o suspense por mais umas linhas mas estou deserto por revelar o remédio, que é, tan tan tan tan, que é, tan tan tan tan, que é, tan tan tan tan, o chá de hiena!!! Esqueçam a vacina, se apanharem covid é só um chazinho de hiena e está feito. Muito simples. Agradeçam à UBI. Agradeçam-lhe, tal como a academia sueca se prepara para lhe agradecer atribuindo-lhe o Nobel da Medicina pela descoberta do chá de hiena na cura do covid19. 
Aposto que, quando o Nobel chegar, António Rolo Duarte, esse elitista de meia tijela, vai alterar radicalmente o discurso para “passa pela cabeça de alguém ir estudar para uma universidade que não seja a Universidade da Beira Interior?”. Agora pergunto: a qualidade do ensino que é ministrado na UBI muda com a atribuição do Nobel, assim por artes mágicas?! Certamente que não. O que muda é o status, esse sim, muda e de que maneira. Na cabeça do Rolo Duarte a UBI passa de carrito baratucho a Ferrari, e isso é que conta. Bem digo eu que um trapo encharcado ainda era pouco…

Gondri

sábado, 9 de janeiro de 2021

As universidades portuguesas são uma anedota.

 

 
Segundo António Rolo Duarte, o puto maravilha, as universidades portuguesas são todas uma anedota, as inglesas é que são boas. Aqui na UBI é mais Ciências Burricais. Eu, por exemplo, que me licenciei na UBI, além de ser anedótico sou um calhau com dois olhos e não consigo distinguir um balde de um alguidar. Lisboa, Porto e Coimbra ainda assim são as menos más, os neurónios torcidos estão todos no interior. Se os crânios iluminados como o Rolo Duarte estivessem dispostos a dar aulas nas universidades do interior outro galo cantaria, já eram todas muito boas. Assim são todas uma merda. Aliás, todas uma anedota, não quero deturpar as palavras do puto maravilha. Por acaso no que respeita à de Évora até concordo, é uma anedota de alentejanos. Só p’ra que conste vou contá-la: estava um alentejano a subir a um chaparro carregando um porco quando passou um tipo e lhe disse, “ó compadre, porque é que você está a carregar o porco p’ra cima do chaparro?”, “p’ró levar a comer as bolotas”, “e porque é que vossemecê em vez de levar o porco aí p’ra cima não deita as bolotas abaixo e o porco come-as no chão”. O tipo seguiu o seu caminho e o alentejano, desistindo da subida, disse de si para si, “eh pá, este gajo deve ser ingenhêro”.
O Rolo Duarte diz que as universidades portuguesas são trágicas. Mais uma vez, concordo. Eu próprio vi-me grego para fazer algumas cadeiras, eram uma autêntica tragédia grega, não há dúvida. Aliás, dizer delas que são trágicas é pouco, são autênticos curtos-circuitos, acho que fiquei com alguns fusíveis fundidos para sempre. Ainda bem que no meu curso não dei a enguia elétrica, senão é que era o bonito e o belo. Nem isso nem o pirilampo, que é um animal piscante, e que nem por isso é parecido com o lavagante. Se repararem começo a não dizer coisa com coisa. E além disso temos a osga que é um animal pitosga e respira por guelras através do ângulo reto. Insisto para que reparem que eu não estou bem, é tudo estupidez entranhada por ter estudado numa universidade onde só estudam os burros. Não queria dar razão ao Rolo Duarte, mas, infelizmente, eu sou a prova mais que provada de que ele está coberto de razão. Até começo a dar razão aos tipos do PAN quando colocam em pé de igualdade os homens e os animais, no meu caso os burros.
Se eu soubesse que a UBU era assim tão embrutecedora jamais me meteria no sopé da serra a estupidificar. Os professores uma lástima, as instalações uma lástima, os laboratórios uma lástima, enfim, tanta lástima que é impossível reverter este processo de progressiva lastimização. Experimentem perguntar a qualquer professor do departamento de Química se ele sabe o que é o processo de lastimização. Era o sabes. O mais certo é responder tipo “pergunte-me o que é a esterificação, a destilação, a titulação, a fermentação, a carboxilação, a hidrogenação, a polimerização, a ionização, a sulfonação, a alquilação, a nitração, a aminação, a oxidação, a redução, etc, etc, pode perguntar bué que eu explico tudo. Agora a lastimização, essa confesso que não conheço”. Ora berdamerda, bem diz o outro que as universidades em Portugal são uma anedota, então agora os professores é que decidem que perguntas é que lhes havemos de fazer?! Nem comento…
O puto maravilha é doutorado em História e mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade de Cambridge, e licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade de Manchester, mas não pense que é melhor do que o Zézé Camarinha, que esse sim, era um ás em relações internacionais. Fazia inveja aos bodes, era menino para ter algumas dez relações por dia e ainda lhe sobrava libido para outras dez. Esse doutorou-se no Algarve com inglesas, suecas, holandesas, tudo o que vinha à rede era peixe. Bacalhau, digamos assim. Se formos ver, o Zézé Camarinha até tem mais internacionalizações do que o Cristiano Ronaldo. Internacionalizações da gaita, entenda-se. Ao pé dele o Rolo Duarte é um aprendiz de pinoqueiro.
O nosso Rolo acha-se o suprassumo do rabanete. Estudou com a fina flor, não se mistura com a arraia-miúda e muito menos com a saloiada provinciana das universidadezecas do Portugal de segunda. Como estudou em Inglaterra, onde são todos muito espertos – aliás, nota-se pelo brexit – tem uma bagagem que lhe permite conhecer o ensino universitário português como ninguém, mesmo sem nunca lá ter posto os pés. Pavoneia-se com classe. Não é sobranceria, é mesmo classe. E também não tem a mania que é bom nem se arma aos cágados. Nada disso. As universidades portuguesas é que são uma tragicomédia, é tudo uma merda, é só pontes a cair porque alguém teve a infeliz ideia de por um engenheiro português a construí-las, as casas idem, e nos hospitais é só tarascos que em vez de curar descuram, à frente das empesas atrasados mentais, nos campos, agrónomos que ainda pensam que dois tomates e uma banana é assunto do foro da urologia… enfim, em Portugal só se formam burros sem veterinários à altura.
Confesso que me rendi à assertividade e convicção com que o puto maravilha fala do que não sabe. Do que sabe qualquer um fala, não é admiração nenhuma. Agora falar assim do que não se sabe não é para qualquer um, é mesmo só para predestinados. Se eu mandasse mandava cloná-lo e distribuía os clones pelas várias universidades nacionais. Para lecionar, claro. Se o ensino universitário em Portugal não presta é porque os professores não prestam, só com rolos duartes em doses generosas é que é possível combater esta ignorância sistémica em que estamos mergulhados. (Não confundir com rolos de papel higiénico, é mesmo com rolos duartes, ok?).

Gondri