domingo, 9 de agosto de 2020

Calem-se que vem lá o Fiadeiro!!!



Disseram-me aqui há uns tempos que um professor de Literatura Portuguesa da UBI, todo p'rá frentex, resolveu dar uma aula de literatura a rir, sobre um texto cómico, um comentário jocoso à foto anexa: “um cavalheiro nunca ultrapassa uma senhora, isso é ponto assente. E também não há nada, nem na Bíblia nem na Constituição da República, que diga que um homem não pode regalar as vistinhas com paisagens do foro da anatomia. Por isso a chata rabujenta da mulher dele que meta uma rolha e esteja caladinha. Ou então que arranje uma bicicleta e vá ela p'rá frente do carro, insinuar-se lascivamente com o selim enterrado entre as nalgas...”. 
A intenção do professor era seguir um método pedagógico que ele achava muito mais profícuo, o de ensinar literatura a rir, de integrar o humor como forma de entusiasmar os alunos e facilitar a aprendizagem dos conteúdos. Depois da leitura do texto seguir-se-ia a análise interpretativa e todas as abordagens típicas do estudo literário àquele nível, e, tirando o facto de se tratar de um texto muito pouco ortodoxo, tudo o resto estava dentro das normas. 
O problema foi que a aula disparou numa risada coletiva e a avalanche sonora espalhou-se como por osmose e atingiu outras salas de aula, e a consequente indignação de outros professores, que consideraram aquilo uma interrupção inadmissível e uma falta de respeito. Como se isso não bastasse, ao cagaçal entrópico das gargalhadas somaram-se algumas tiradas dos alunos mais alterados, que, deitando p’ra trás das costas o decoro e o dever de silêncio, se saíram com expressões menos dignas. Houve um que furou a barafunda geral exclamando em alta voz “esta é que tem uma peidola do caralhote!”. Outro, que tinha a mania que era poeta, apercebendo-se de que o termo “caralhote” podia ser confundido com uma das asneiras mais reles e ordinárias do calão lusitano, prontificou-se a vir em auxílio do colega, e, inocentando-o por via poética, declamou:

“caralhote” não é asneira 
a sílaba “te” no final 
desinfeta-o de tal maneira 
que lhe restitui a moral…

E para a “peidola”? – comentou outro em grande alarido – não tens nenhuma estrofe? De facto “peidola” não era uma daquelas asneiras pesadas, era, quanto muito, uma palavra feia. E, acusando o desafio, o poeta regressou à lide:

Há quem diga que viola
o decoro, que é foleira,
mas na verdade “peidola”
nem sequer é uma asneira.

E assim se foram sucedendo as bocas e as piadas. Às duas por três houve quem sugerisse que se reproduzisse ali o espírito do “Clube dos Poetas Mortos”, e começaram todos a subir para cima das mesas, e num canto da sala recitava-se a lírica de Camões, noutro a Mensagem de Pessoa, e a poesia brotava como as fumarolas fervilhantes dos Açores, “carpe diem, carpe diem”, gritava-se, a euforia tomava proporções quase alucinogénicas.
O professor perdeu completamente o controlo da situação e o barulho ensurdecedor acabou por ter consequências. Os professores que estavam a dar aula nas salas adjacentes não se contiveram mais e irromperam de rompante na festa, “o que é que se passa aqui, está tudo doido?”, vociferavam com cara de poucos amigos, eles próprios incrédulos com o que viam. Apesar de tudo a coisa até foi mais ou menos pacífica, o pior foi quando chegou o professor Fiadeiro que não tolerava sequer que uma mosca zumbisse à porta da sua sala. 
Eu sempre achei o Fiadeiro um excelente professor, explicava com limpidez, cada palavra no seu lugar, sem portantos nem efetivamentes, tudo muito claro, uma voz grave, cheia e colocada, um porte físico de meter respeito e uma presença de líder. Parecia um conferencista de elite, tinha classe. Mas ao mesmo tempo era assustador, para pôr os alunos todos a tremer era um instantinho, e então quando chamava alguém ao quadro é que era um filme de terror. Quando se irritava atirava os decibéis todos lá para cima e a voz dele perturbava tudo ao seu redor, inclusivamente as aulas de outros professores, mas ai de quem perturbasse as suas, por pouco que fosse. Quando olho para trás e recordo aquela sua pose dura e ditatorial tenho a convicção de que ele não era nada daquilo, que no fundo era um coração mole. Encarnava aquele boneco austero e severo para manter um certo distanciamento, e com isso a integridade e a coerência, e sobretudo a justiça na hora de avaliar. Esse era o verdadeiro Fiadeiro, sem máscara, mas compreendo perfeitamente aqueles que, não o conhecendo e tendo o azar de o apanhar com os azeites, o achavam uma besta…
Naquele dia o professor Fiadeiro estava a dar Tinturaria numa sala relativamente distante e já pouco sofria o incómodo do barulho da aula de literatura portuguesa, mas o que lá chegava era suficiente para lhe fazer saltar os nervos. Lançado como um míssil em direção ao foco, aí foi ele com o seu metro e noventa, ou coisa parecida, os seus cem quilos, a passar, e com um vozeirão e uma cara de mau que poria em sentido um pelotão de tropas especiais. Quando chegou, aos gritos, a fumegar, com aquele estilo imponente e atemorizador, desceram todos das mesas, meteram o rabo entre as pernas, alguns nem conseguiram segurar os intestinos e empestaram a sala de fedores pouco recomendáveis, outros tremiam como se tivessem visto o Frankenstein, mas não houve um único que se atrevesse a abrir a boca que não fosse para respirar. O professor Fiadeiro demorou a acalmar e desancou no professor de literatura à frente de todos, e o coitado, caladinho que nem um rato, nada podia dizer, porque, perante o festim carnavalesco que ali se assistira, não havia mesmo nada que pudesse dizer em sua salvação. 
Felizmente a coisa passou e não teve repercussões, nem para o professor, nem para os alunos. A reitoria soube do caso mas decidiu não reagir, em nome da paz, até porque a promessa de que não voltaria a acontecer foi acolhida com confiança. O professor não abdicou dos seus processos e continuou a ensinar pelo riso, não sem antes obter da parte dos alunos, sob palavra de honra, a garantia de que não voltariam a passar-se da cabeça. E o que fica para a história é que aquele professor de literatura portuguesa, bem-humorado e sonhador, ao bom estilo do professor John Keating (Robin Williams) do clube dos poetas mortos, nunca foi igualado na proficiência com que preparou os seus alunos. Além de estar por trás das melhores notas das pautas, forneceu à sociedade uma invejável fornada de ubianos com substrato.

Gondri

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